Jamais declare-se vegetariano num hotel, restaurante, companhia aérea
ou na casa da sua tia-avó. É que todos eles têm
a mesma vivacidade e vão responder:
Eu gostaria de lhe preparar uma comida decente, mas já
que você não come nada vou-lhe servir uma saladinha
de grama.
E, por mais que você tente explicar que vegetariano não
é isso o que a esvoaçante fantasia do interlocutor
imagina, sua probabilidade de sucesso é nula. Na caixa-preta
dele já está selado, carimbado e homologado que
vegetariano só come salada e ponto final.Há vinte
anos envio cartas e faço visitas de esclarecimento à
comissaría e aos nutricionistas de uma conhecida companhia
aérea brasileira. Mas nada os demove da sábia decisão
de que conhecem melhor o vegetarianismo do que os próprios
vegetarianos. E tome discriminação. Os mal-entendidos
já começam ao fazer a reserva. Basta solicitar alimentação
lacto-vegetariana, cujo código é VLML, para que
o solícito funcionário do outro lado da linha registre
alegremente:
Ah! Vegetariano? Perfeitamente, senhor.
Só que a alimentação vegetariana, para as
companhias aéreas, tem outro código, VGML, que designa
um sistema bem diferente e absurdamente intragável que
só existe na cabeça dos nutricionistas dos caterings.
Fico a pensar se VGML é a sigla para VegMeal ou se significa:
Você Gosta Mesmo dessa Lavagem?
E se o passageiro sabe mais do que o atendente e adverte-o para
que use o código certo, invariavelmente é deixado
na linha esperando enquanto ocorre uma conferência nos bastidores.
Às vezes o som vaza e pode-se escutar:
Diz prá ele que esse código
não existe. Não é vegetariano? Então
é VGML.
Certa vez, numa viagem internacional, minha mesinha já
estava posta quando tive a infeliz idéia de informar a
comissária de bordo que o pedido de alimentação
vegetariana era meu. Ato contínuo ela retirou da minha
mesa o queijo, a manteiga, a maionese, o pão, o biscoito,
o chocolate, a sobremesa e tirou até o sal e a pimenta.
No lugar, colocou uma lavagem de legumes cozidos à moda
de isopor.
Por que a gentil senhorita fez isso com este simpático
cavalheiro? Será que ela pensa que queijo é carne?
Que manteiga, maionese, chocolate são algum tipo perigosíssimo
de carne de vaca-louca camuflada?
O pior nas viagens aéreas é que se você pedir
alimentação VGML ou VLML, o pessoal do catering
tira a sua sobremesa como que a puni-lo por ter-lhes dado trabalho.
É como se estivessem a ralhar com o passageiro:
Menino mau. Já que não
come a sua carne, vai ficar sem sobremesa.
E você é obrigado a comer legumes cozidos ou salada
fria com uma uva de sobremesa, enquanto assiste o vizinho de poltrona
refastelando-se com um prato quentinho de strogonoff, suflê,
parmegiana, milanesa, tudo arrumado com capricho, mais um apetitoso
pudim e ainda tem que ouvi-lo comentar:
Essa comida de bordo é uma
porcaria... Pensa que a discriminação é
só no ar? Em terra firme é pior. Se num restaurante
você se declarar vegetariano e consultar o maître
sobre o que ele sugere, o esforçado cavalheiro poderá
lhe dar duas respostas. A mais freqüente é:
O senhor é vegetariano? Nesse
caso podemos lhe oferecer frango, peixe... E a lagosta está
ótima.
Inútil tentar fazê-lo entender que vegetariano não
come carne de frango, nem carne de peixe, nem carne de crustáceo.
Ele fará uma cara de ervilha encefálica e lhe oferecerá
bacon. O leitor pensa que estou gracejando? Então faça
a experiência. Entre no próximo restaurante e use
a palavra mágica vegetariano. Garanto que à saída
fará uma generosa doação para o Serviço
de Proteção ao Vegetariano Incompreendido.
A outra resposta que o maître poderá lhe dar é
a de que não tem nada para vegetarianos. Então você
lhe contrapõe:
Tem batata frita? Tem couve-flor?
Tem queijo? Tem farofa? Tem palmito? Tem espaguete? Tem champignon?
Tem pizza? Se tem tudo isso e muito mais, porque o senhor
declara que não tem nada para vegetarianos? Aí,
ele lhe serve uma sopa de cebola com caldo de carne.
Vamos, portanto, tentar esclarecer alguns equívocos consagrados
pela opinião pública leiga sobre a alimentação
vegetariana, incluídos aqui os nutricionistas, especialmente
os das companhias aéreas e os chefs de cuisine de restaurantes
e hotéis e, certamente, as tias-avós de todos
nós.
1. Vegetariano é
aquele que não come carnes. Nem vermelhas, nem brancas,
nem azuis, nem furta-cor. Carne alguma. E é só isso.
O Vegetarianismo divide-se em três grupos:a) Vegetarianismo
propriamente dito (também chamado Lacto-ovo-vegetarianismo),
que consiste em alimentar-se com absolutamente tudo o que é
usado na alimentação comum, menos as carnes de qualquer
espécie;
b) Vegetalianismo (também denominado Lacto-vegetarianismo),
que consiste no mesmo que a modalidade anterior, menos os ovos;
c) Vegetarismo (também chamado Vegetarianismo Puro), que
não aceita as carnes, nem os ovos, nem os laticínios.
O sistema mais comum é o primeiro. Quando alguém
se declara vegetariano, em noventa por cento dos casos, está
querendo dizer que apenas não ingere carnes, de espécie
alguma. As outras duas modalidades são extremismos geralmente
atrelados a comportamentos doutrinários.
2.
Vegetariano não come salada. Só de vez em
quando.Um absurdo é supor que só pelo fato de uma
pessoa não querer comer carnes de bichos mortos tenha,
por isso, que se abster de todos os demais pratos de forno e fogão
tais como empadões, suflés, pizzas, massas em geral,
panachés, rissolis, gratinados, dorés, empanados,
milanesas, strogonoffs, fondues, farofas, molhos de tomate, acebolados,
golf, rosé, maioneses e as 15.000 variedades de legumes,
cereais, hortaliças, frutos, raízes, ovos, leite,
queijos, iogurtes... mais toda aquela gama maravilhosa de especiarias
tais como orégano, cominho, coentro, noz-moscada, tomilho,
gengibre, cardamomo, páprica, louro, salsa, cravo, canela,
manjericão, manjerona, chili, curry, masala e uma infinidade
de outros.
O vegetariano é um gourmet sofisticado e exigente que não
faz questão apenas de saúde e higiene alimentar,
mas também de prazer, como qualquer outro ser humano. Se
não quer cometer uma indelicadeza, não lhe ofereça
"uma saladinha". Ele vai morrer de pena de você
e talvez chegue até a aceitar, só por educação.
3. Vegetariano não
come soja. Só adota compulsivamente a soja o falso
vegetariano, aquele vegetariano de boutique, quero dizer, de restaurante.
Vegetariano de verdade, experimentado e informado não usa
soja porque isso é uma mera bobagem. A não ser que
essa leguminosa entre na composição de algum produto
como kibe vegetal, etc. Soja é ruim, indigesta, desnecessária
e contém um excesso de proteína.
4. Vegetariano não
come só produtos integrais. Não! Ou será
que os refinados deixam de ser vegetais e passam a ser algum tipo
de carne?
5. "Para o doutor
aqui sirva o chá sem açúcar que ele é
vegetariano." Por quê sem açúcar?
Por acaso açúcar é carne? Vegetariano não
come é carne. Açúcar é vegetal. Não
temos nada contra o açúcar. Procuramos apenas evitar
exageros no uso de alimentos empobrecidos pelo refino. E isso
é tudo. Portanto, solicitamos às companhias aéreas
que parem com a mania de suprimir a sobremesa, o chocolate, e
até o queijo, a manteiga e os biscoitos (que absurdo!)
de quem só disse que não queria comer carnes.
6. "Vegetariano não toma refrigerante."
Não estamos discutindo aqui se refrigerante é saudável
ou não. Estamos denunciando o absurdo da colocação:
"Quem se propõe a não comer carne não
pode tomar refrigerante." Se você concorda com essa
lógica transversal, cuidado para não ser reprovado
em testes psiocotécnicos!
7. Tofu, missô e
shoyu. Isso não faz parte da culinária vegetariana
e sim da macrobiótica. São elementos procedentes
da cozinha japonesa, logo só devem ser usados em pratos
japoneses. Ou macrobióticos, já que essa corrente
criada por Oshawa é declaradamente nipocêntrica.
Colocar algas, shoyu, missô, tofu e outros produtos macrôs
em receitas que tenham a intenção de ser apenas
vegetarianas é uma gafe comparável à que
cometem os estrangeiros que vêm ao Brasil falando espanhol!
E, seja lá quem for ou que títulos exiba, se alguém
se atrever a declarar que a alimentação vegetariana
não fornece todos os aminoácidos essenciais, conteste
com a indignação dos justos. Diga: Estou convencido
de que você não sabe o que é o vegetarianismo....
Afinal, um sistema alimentar que reúna todos os legumes,
frutas, verduras, cereais e raízes, mais leite, queijo,
coalhada e ovos, não pode ser considerado carente. Aliás,
recordo-me com grata alegria, de um médico de Lisboa que
clinicava aos 103 anos de idade! Era vegetariano.
Recordo-me, ainda, do folclórico maratonista gaúcho
septuagenário que todos os anos, comemorava seu aniversário
correndo 24 horas seguidas com uma faixa no peito onde se lia
uma única e significativa palavra: Vegetariano.
Vegetarianos foram também Bernard
Shaw, Isaac Newton, Leon Tolstoi, Isadora Duncan, Xuxa, Pitágoras,
Rousseau, Madonna, Paul McCartney, Éder Jofre, Thomas Koch.
Não nos esqueçamos de que os maiores e mais fortes
mamíferos terrestres são todos vegetarianos: o elefante,
o rinoceronte, o hipopótamo, o búfalo, o bisonte...
Leia mais no livro de Rosângela de Castro, "O
Gourmet Vegetariano".