O termo Tantra significa: regulado por uma regra geral; o encordoamento
de um instrumento musical; tecido ou teia, ou a trama do tecido.
Outra tradução é "aquilo que esparge
o conhecimento". Ou ainda, segundo Shivánanda(18),
explica (tanoti) o conhecimento relativo a tattwa e mantra, por
isso se chama Tantra. Não podemos ignorar a correlação
etimológica sugerida pela frase vakrat vak tantraram, que
designa a tradição boca-a-ouvido.
Tantra é o nome dos antigos textos de
transmissão oral (param-pará) do período
pré-clássico da Índia, portanto, de mais
de 5.000 anos. Mais tarde, alguns desses textos foram escritos
e tornaram-se livros ou escrituras secretas do hinduísmo.
Naquela recuada época de origem do Tantra, a Índia
era habitada pelo povo drávida, cuja sociedade e cultura
eram matriarcais, sensoriais e desrepressoras. Por isso, diz-se
que eram um povo tântrico, já que essa filosofia
é caracterizada principalmente por aquelas três qualidades.
Aliás isso é uma noção amplamente
divulgada e universalmente aceita.
O Tantra, o Sámkhya e o Yôga são
três das mais antigas filosofias indianas e suas origens
remontam à Índia proto-histórica, ao período
dravídico(19). Talvez por isso essas três tenham
mais afinidades entre si do que cada uma delas com qualquer outra
filosofia surgida posteriormente. Este dado é de fundamental
importância na milenar discussão: o Yôga mais
autêntico é de tendência Sámkhya ou
Vêdánta? Tantra ou Brahmácharya?
A História
Do Tantra
A linha brahmácharya é patriarcal,
anti-sensorial e repressora. Portanto, diametralmente contrária
à linha tântrica, que é matriarcal, sensorial
e desrepressora.
De onde surgiram essas características?
A maior parte das sociedades primitivas não-guerreiras
as tinham. Toda sociedade na qual a cultura não era centrada
na guerra, valorizava a mulher e até mesmo a divinizava,
pois ela era capaz de um milagre que o homem não compreendia
nem conseguia reproduzir: ela dava a vida a outros seres humanos.
Gerava o próprio homem. Alimentava-o com o seu seio. Por
isso era adorada como encarnação da divindade mesma.
E mais: através das práticas tântricas, era
a mulher que despertava o poder interno do homem por meio do sexo
sacralizado. Ainda hoje ela é reverenciada assim na linha
tântrica.
Daí, a qualidade matriarcal. Dela desdobram-se
as outras duas características. A mãe dá
à luz pelo seu ventre isso é sensorial. Alimenta
o filho com o seu seio isso é sensorial também.
Não poderia ser contra a valorização do corpo,
não poderia ser anti-sensorial como os brahmácharyas.
A mãe é sempre mais carinhosa e liberal do que o
pai, até mesmo pelo fato de o filhote ter nascido do corpo
dela e não do dele. E também por ser da natureza
do macho ter mais agressividade e menos sensibilidade. Pode ser
que tal comportamento tenha muita influência cultural, mas
é reforçado, sem dúvida, por componentes
biológicos.
Por tudo isso e ainda como conseqüência
da sensorialidade, desdobra-se a qualidade desrepressora do Tantra.
Assim era o povo drávida, que vivia antigamente
no território hoje ocupado pela Índia. Assim era
o Tantra que nasceu desse povo e assim era o Yôga que existia
nessa época: um Yôga tântrico.
Mas um dia a Índia começou a ser
invadida por hordas de sub-bárbaros guerreiros, os áryas
ou arianos.
Ao guerreiro não podem importar o envolvimento
mais profundo com a mulher nem a conseqüente família
e o afeto. Seria até incoerente. Ele não pode ter
laços que o amoleçam ou se sentirá acovardado
diante da expectativa da luta e da morte sempre iminente. Então,
ele torna-se contra a influência da mulher que frenaria
sua liberdade e seu impulso belicoso. É contra os prazeres
que o tornariam acomodado(20). É contra a sensorialidade,
pois também não pode se permitir sensibilidade à
dor perante o combate ou a tortura. Por isso tudo ele é
anti-sensorial, contra a mulher e contra o prazer. Por conseqüência,
torna-se repressor, pois começa a proibir o sexo, a convivência
com a mulher(21) e os prazeres em geral. Depois expande essa restrição,
tornando-a uma maneira de ser, uma filosofia comportamental(22).
Quando os arianos invadiram a Índia há
3.500 anos[1], escravizaram os drávidas e impuseram-lhes
a cultura brahmácharya (patriarcal, anti-sensorial e repressora),
proibindo-lhes, portanto, exercer a cultura tântrica (matriarcal,
sensorial e desrepressora) por ser oposta ao regime vigente. Quem
praticasse o Tantra e reverenciasse a mulher, ou divindades femininas,
seria acusado de subversão e traição. Como
tal, seria perseguido, preso e torturado até à morte.
Dessa forma, com a sua proibição
por razões culturais, raciais e políticas, o Tantra
se tornou uma tradição secreta. Continua assim até
hoje, pois continuamos vivendo num mundo marcantemente brahmácharya,
não apenas na Índia, mas na maior parte das nações.
Mencionamos razões raciais pois, ao invadir
a Índia, os arianos eram louros (como ainda o eram os arianos
que Hitler liderou em sua campanha de conquistas militares, em
pleno século XX por isso seu símbolo era
a cruz swástika, antigo símbolo hindu), enquanto
que os drávidas tinham pele escura e cabelos pretos.
O Mecanismo Biológico
do Tantra
Os antigos haviam descoberto que para a natureza,
o indivíduo é fator descartável, porém
a espécie não. Esta deve ser preservada a qualquer
custo. A natureza é capaz de eliminar sumariamente milhões
de indivíduos se isso for útil à espécie.
As sociedades de insetos nos fornecem bons exemplos disso, quando
milhões de formigas ou de abelhas se sacrificam voluntariamente
pelo bem do formigueiro ou da colméia. Na verdade, o ser
humano não está muito distante desse comportamento.
Basta lembrar nossa história de guerras tribais, depois
entre nações e agora, envolvendo praticamente todo
o planeta.
Que utilidade há em sabermos que a natureza
descarta o indivíduo, mas luta para preservar as espécies?
Sob a ótica da lei natural, quando um indivíduo
se reproduz já cumpriu sua obrigação perante
a espécie. E logo depois seu organismo passará a
um processo mais acelerado de decadência em direção
à morte. Entretanto, se ele praticar o maithuna, segregando
hormônios sexuais em abundância e depois retiver o
orgasmo, criará artificialmente um estado de permanente
disponibilidade para a reprodução. Como a natureza
preserva um reprodutor por ser muito útil à espécie,
esse indivíduo será protegido contra doenças,
envelhecimento e até acidentes, pois mantém-se com
mais reflexos e mais inclinação a Eros que a Tânathos.
Esses dois impulsos, o de vida e o de morte, estão em constante
oposição nos seres humanos.
Quando o impulso de Eros é mais atuante,
a pessoa manifesta melhor disposição para a vida
e maior vitalidade. Logo, desfruta de mais saúde, menos
enfermidades e depressão. Por isso, também apresenta
menor propensão a acidentes. Muitas vezes, esses não
passam de tentativas inconscientes de suicídio.
De fato, em todo o reino animal, quando os indivíduos
estão aptos à reprodução, quando estão
bem abastecidos de hormônios sexuais, tornam-se exuberantes
e bem mais fortes. Isso também poderia explicar o efeito
semelhante que a prática de maithuna tem sobre os seus
praticantes.
Para terminar, convém informar ao leitor
que Yôga e Tantra não são a mesma coisa. São
coisas diferentes. Mas o Yôga original, logo mais autêntico,
era comportamentalmente tântrico, já que o brahmácharya
só seria introduzido milênios mais tarde. Então,
este último não tem autenticidade em termos de origens
e de coerência com o Yôga. Por essa razão,
todos os nossos alunos gostaram muito mais quando comecei a ensinar
as mesmas técnicas que ensinava antes, só que agora
com o colorido de uma influência mais coerente, mais legítima,
mais original(25). Foi aí que começou o meu êxito
no campo do magistério de Yôga. E, como não
há sucesso sem a reação dos que estão
sendo ultrapassados, com isso teve início também
a pendenga que me estimulou a crescer, estudar mais, trabalhar
melhor e desenvolver tudo o que será relatado nos capítulos
seguintes.
(17)
Por falar em liberdade, vale a pena observar aqui que algumas
pessoas confundem os ideais libertários do Tantra com a
pura e simples anarquia. Quando lhes recordamos as normas da disciplina
ou da ética, redargúem, acusando-nos de estarmos
sendo repressores para, com isso, justificarem suas atitudes,
por vezes, inconvenientes. Tais praticantes não entenderam
nada do conceito de liberdade-com-disciplina do Yôga tântrico.
(18) Livro
Tantra Yôga, Nada Yôga e Kriyá Yôga,
de Swámi Sivánanda (pronuncie Shivánanda),
Editorial Kier, página 25.
(19) Livro
Yôga, Sámkhya e Tantra, do Prof. Sérgio Santos.
Ler também os livros: Conhecer melhor a Índia, de
Raghavan, Publicações Dom Quixote, páginas
12 e 25; Antigas Civilizações, de Gaston Courtillier,
Editions Ferni, página 24; Yôga e Consciência,
de Renato Henriques, Escola Superior de Teologia, páginas
26, 33, 34, 54 e 55 da primeira edição.
(20)
Consta que uma das razões que contribuíram
para a queda do Império Romano teria sido a introdução
dos banhos quentes como hábito cotidiano, os quais teriam
arrefecido a têmpera dos seus, antes, bravos guerreiros.
No Brasil, para domar a fibra dos temíveis índios
cinta-larga, do Amazonas, os construtores da estrada Transamazônica
usaram... açúcar!
(21) Autobiografia,
de Swámi Sivánanda, Editora Pensamento, página
140.
(22)
Em vários livros de Yôga de linha brahmácharya
encontra-se a proibição de se utilizar alho e cebola
na alimentação, enquanto que nos de Yôga tântrico
esses dois alimentos são considerados muito úteis
à saúde. É que, por serem bastante energéticos,
costumam aumentar a energia sexual de quem os utilize e, como
os brahmácharyas são contra a expressão da
sexualidade, tais alimentos são tachados de "piores
do que a carne".
[1] Nota sobre discrepâncias
históricas: há duas versões principais para
a Proto-História indiana e algumas outras variantes de
menor importância. A esse respeito, leia nota no final do
capítulo.
(25) Ainda assim, para
me desintoxicar de toda a lavagem cerebral a que havia sido submetido
anteriormente, levou tempo. Mesmo estando atento para retirar
toda a tendência espiritualista e repressora, levei mais
de dez anos até conseguir chegar a um bom termo. E isso
só ocorreu quando comecei a entender as raízes Sámkhyas
do Yôga pré-clássico.
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